
Não é mágico quando você nota que nem todo mundo domina a arte do insulto?
Que nem tentando muito, mas muito mesmo, espremendo bem o cerebrozinho de grão de bico, sai um insulto decente e digno de uma coçadinha no orgulho?
Mas essa arte é para poucos. Xingar não é o caso, não é disso que estamos falando. Xingar virou interjeição, complemento de frase. Nem conta. Nem ofende se a tarefa é desossar, temperar e levar ao forno.
O que muito me incomoda nessa parcela despreparada, é a ofensa cômica do subestimar.
Há todo um processo, um trabalho de campo, uma pesquisa embasada, um preciosismo para insultar.
É difícil? É.
Quando você ouve alguém dizer:
Fica com isso aqui porque eu vou ali e se não der tempo você termina.
A reunião foi supercomplexa, vou nem explicar que cê nem vai entender...
Falei com fulano sobre aquele assunto que você discorda e ele disse que quem tá errada é você.
Ontem foi ontem, hoje é hoje.
Ah, você também queria chocolate? É que você não pediu..
Saca, mongolismos?
Dai você sabe que para fugir da realidade-massacre dessa vida, há de se expressar na arte toda a energia reprimida, toda beleza que a rotina não deixa fluir.
Bora insultar com mais dedicação? Mais traquejo. Mais envolvimento. Um toque de esforço e pesquisa. Bora florear o cinismo, perfumar a mentira, apalpar o golpe bem gostoso, na linha da banha. É disso que estou falando. O ser humano perdeu seu bem mais sensual nos últimos tempos:Disciplina. Ninguém mais se esmera, é tudo de qualquer jeito, enrolado num pano de prato surrado e encardido: Ó, come aí...
Acho que estamos caminhando para uma passividade bovina sem precedentes. Mascamos o mato e não nos incomodamos com as moscas em nosso rabete. A humanidade não era assim, não!!! Quer insultar? Trabalhe. Quer ofender? Trabalhe. Quer tripudiar ? Trabalhe. Convulsione, mas trabalhe para a perfeição. Talvez um dia as pessoas cheguem a algum lugar, desenvolvam algum dom que as tire da mediocridade. Mesmo que seja na arte do insulto. Mesmo que seja para que eu chegue a conclusão tacanha, mas compensadora:" Esse daí daria um bom político!"


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